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A criação da série fotográfica "Nenhum Lado, Todo Lado"

  • Foto do escritor: Ale Rodrigues
    Ale Rodrigues
  • 1 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

Pinheiros pretos dispersos na neve branca, em paisagem minimalista e silenciosa; sem texto visível.

Há momentos em que a fotografia deixa de ser apenas um registro visual para se tornar uma prática de escuta. Escuta do espaço, do silêncio, do intervalo entre as coisas.


Na série Nenhum Lado, Todo Lado, estava viajando ao Alasca e na janela do avião pude observar as montanhas cobertas de neve em contraste com os vales escuros e comecei a refletir sobre a essência daquela paisagem. Eu não estava buscando cores, luzes douradas ou composições, estava buscando uma essência daquilo. Comecei no celular mesmo a fazer algumas edições e experimentações visuais com o arquivo digital .dng que eu havia capturado na janela do avião. Aquela foi a primeira foto da série. A partir deste momento no começo da viagem eu buscava o que restava quando tudo aquilo que nos encanta à primeira vista era retirado da cena.


Trabalhar com preto e branco posterizado foi, para mim, uma decisão quase inevitável. Ao eliminar gradações suaves, ao transformar o mundo em contraste absoluto, percebi que algo novo surgia: a arquitetura invisível da paisagem — aquela trama de linhas, formas e texturas que o olho distraído muitas vezes não percebe.


Essas imagens não são documentais; são interpretações. Elas não querem apenas mostrar um lugar, mas sugerir um estado de espírito: o encontro entre o mínimo e o infinito, a vibrante solidão das vastidões vazias, a contemplação que nasce no espaço entre os opostos.


Vivemos em um mundo maniqueísta que insiste em dividir: luz e sombra, certo e errado, bonito e feio, vitória e fracasso. Meu convite com Nenhum Lado, Todo Lado é outro: e se a fotografia puder ser um espaço de coexistência, onde não há lado vencedor? Onde branco e preto são apenas faces transitórias de uma realidade que escapa a qualquer definição? Um não existe sem o outro, na verdade eles se complementam


Um dos pilares silenciosos desta série é a influência do pensamento zen. Eu não sou praticante do zen, mas gosto muito desta filosofia, acredito que me identifico muito e em certo olhar meu trabalho e minhas influências japonesas desde a infância também.


Para mim, fotografar o Alaska em preto e branco, reduzindo tudo ao contraste bruto, foi mais do que uma escolha estética: foi um exercício espiritual.


No zen, há a ideia de que as coisas só existem plenamente no espaço entre os opostos. Não é no preto nem no branco, mas na relação entre ambos, que a verdade se revela. O zen não busca vitórias, não busca respostas finais. Ele nos convida a habitar a pergunta, a respirar no intervalo, a encontrar sentido no silêncio.


Quando fotografei Nenhum Lado, Todo Lado, eu não queria dizer “a natureza é assim” ou “o Alaska é assim”. Eu queria perguntar: o que resta quando deixamos de lado o julgamento? O que surge quando paramos de dividir o mundo em certo e errado, bonito e feio?


Esse olhar zen também guiou minha postura no campo: fotografar sem pressa, sem esperar o “momento perfeito”, atento não apenas à cena diante de mim, mas ao que ela provocava dentro de mim. Foi um exercício de presença, de aceitação, de escuta.


No fundo, essa série não é apenas sobre paisagens. É sobre a delicada arte de estar no mundo sem querer possuí-lo, de olhar sem precisar nomear, de criar imagens que, mais do que respostas, ofereçam espaço para contemplação.


Fotografar assim foi, para mim, um gesto de maturidade artística, um abandono do lirismo confortável para abraçar a tensão, o atrito e a pergunta sem resposta.


A você que me acompanha, deixo um convite sincero: permita-se a experiência do desconforto criativo. Reduza, simplifique, tensione, faça experimentações malucas onde estiver, no clique e nas edições.


Há um mundo invisível esperando para ser revelado no espaço entre as coisas, naquele intervalo sutil onde a fotografia se torna não apenas imagem, mas meditação.


Veja a série completa e mergulhe nessas imagens clicando aqui.


Você também pode assistir ao vídeo de como ela foi produzida mais abaixo:




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