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Resenha do livro - O livro do chá por Okakura Kakuzō

  • Foto do escritor: Ale Rodrigues
    Ale Rodrigues
  • 16 de fev.
  • 3 min de leitura
Capa de O Livro do Chá, de Kakuzo Okakura, com pintura japonesa de mulheres em quimonos à beira de um rio.

Poucos livros conseguem atravessar o tempo com a delicadeza silenciosa que encontramos em O Livro do Chá, escrito por Okakura Kakuzō. Embora seja, à primeira vista, um livro sobre a cerimônia do chá japonesa, o livro se revela um ensaio profundo sobre estética, espiritualidade, contemplação e sobre a maneira como o ser humano se relaciona com o mundo através da sensibilidade.


Okakura apresenta o chá como uma filosofia de vida. Mais do que uma bebida ou um ritual social, ele o trata como uma expressão cultural que valoriza o simples, o imperfeito e o efêmero. Ao longo das páginas, o autor nos conduz por conceitos fundamentais da estética oriental, como o apreço pela assimetria, o respeito pelo vazio e a reverência pelos detalhes discretos que passam despercebidos para um olhar apressado.


Durante a leitura, é inevitável perceber o quanto essas ideias dialogam diretamente com o ato de fotografar paisagens. Existe um paralelo natural entre preparar uma cerimônia do chá e caminhar por uma trilha em busca de uma fotografia ou mesmo preparar o tripé, colocar os filtros e ajustar a exposição. Ambos exigem tempo, presença e uma certa disposição para aceitar o ritmo das coisas como elas são.


Okakura discute a importância do ambiente na experiência do chá, como o espaço, a iluminação, os objetos, o silêncio entre as pessoas. Esse cuidado minucioso com o entorno encontra um eco claro na fotografia de paisagem. Quando escolhemos um enquadramento, quando aguardamos a luz certa ou quando decidimos incluir ou excluir determinados elementos, estamos realizando escolhas semelhantes às de um anfitrião que organiza cada detalhe de uma cerimônia.


Outro aspecto marcante do livro é a valorização do impermanente. A estética defendida por Okakura não busca a perfeição rígida, mas sim a beleza que existe no transitório. Para quem fotografa natureza, essa ideia é muito forte. A luz muda constantemente, as nuvens se transformam, o vento redesenha superfícies inteiras em questão de minutos. Fotografar paisagem é sobre dialogar com o cenário.


Existe também uma relação muito forte com o silêncio. A cerimônia do chá carrega pausas, gestos contidos e momentos de observação que convidam à contemplação. Quem já saiu para fotografar ao amanhecer conhece bem essa atmosfera. Há um instante em que o mundo parece suspenso, e é nesse intervalo que muitas fotografias acontecem. O livro nos lembra que o silêncio é uma forma de escuta.


Okakura também aborda o conceito de harmonia entre o homem e a natureza. Ele sugere que o verdadeiro refinamento está em reconhecer nossa posição como parte do todo, e não como dominadores do ambiente. Esse pensamento transforma profundamente a postura do fotógrafo de paisagem. Em vez de buscar apenas imagens impactantes, surge o desejo de criar fotografias que respeitem e traduzam a essência do lugar.


Há ainda uma reflexão interessante sobre simplicidade. No universo da cerimônia do chá, a simplicidade representa um refinamento alcançado pela redução ao essencial. Essa ideia conversa diretamente com abordagens minimalistas na fotografia de paisagem, onde muitas vezes a força da imagem nasce justamente daquilo que foi retirado do quadro.


Ao transportar os ensinamentos do livro para a prática fotográfica, percebemos que fotografar paisagens pode se tornar um exercício meditativo. Caminhar sem pressa, observar antes de fotografar, aceitar que nem todo dia resultará em uma imagem que presta e, principalmente, entender que o valor do processo muitas vezes supera o resultado final.


“O Livro do Chá” convida o leitor a desacelerar o olhar. Para fotógrafos de paisagem, essa leitura funciona quase como um lembrete de que a fotografia acontece em tudo o que antecede esse momento, seja desde o deslocamento, a espera, a observação e até a conexão com o ambiente.


A maior contribuição da obra para quem fotografa natureza seja justamente essa mudança de perspectiva. A fotografia deixa de ser apenas uma busca por imagens e passa a ser uma forma de presença no mundo. Um gesto simples, mas carregado de significado, muito parecido com preparar e servir uma xícara de chá.


No fim, o livro sugere algo que muitos fotógrafos acabam descobrindo com o tempo: a paisagem não é apenas aquilo que está diante da câmera, mas também aquilo que acontece dentro de quem observa.


É um livro que você vai ler muito rápido, eu mesmo li em 1 dia em torno de 1 hora e 30 minutos.


Bom, eu adorei o livro e acho muito válido para fotógrafos não só de paisagem, mas de qualquer área. Se você gostou, pode adquirí-lo por aqui: https://amzn.to/3Og0GTT

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