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A Odisseia Fotográfica

  • Foto do escritor: Ale Rodrigues
    Ale Rodrigues
  • 19 de jul.
  • 5 min de leitura

Fotografar também é um caminho de volta para casa


Desde criança, poucas histórias me despertaram tanto fascínio quanto a mitologia grega. Enquanto outras pessoas viam apenas aventuras fantásticas, eu encontrava ali perguntas que pareciam maiores que os próprios personagens. Quem somos? O que buscamos? Por que alguns caminhos nos transformam tanto? Lembro que eu ficava pedindo para o meu pai me mostrar a coleção de livros de mitologia grega que ele tinha da Editora Abril. Eram meados dos anos 80, mas meu pai já tinha desde antes de eu nascer. E eu ficava impressionado com aquelas ilustrações de deuses e monstros.


Agora, com a estreia do filme Odisseia, de Christopher Nolan, percebi que esse antigo interesse voltou à superfície. Não apenas pela curiosidade de ver uma das maiores narradas (na verdade originalmente eram cantadas) da literatura ganhar uma nova interpretação no cinema, mas porque a jornada de Ulisses continua extremamente atual. Mais do que nunca.


Ao longo dos anos, também percebi que existe uma curiosa semelhança entre essa viagem e a fotografia de paisagem.


Ambas começam com o desejo de explorar o mundo e ambas terminam com um encontro consigo mesmo.


Dois livros de mitologia greco-romana sobre fundo cinza: um conjunto antigo e um volume bege com ilustração e título.

Muito além da aventura


Quando pensamos na Odisseia, normalmente lembramos dos ciclopes, das sereias, de Poseidon, de monstros marinhos e tempestades. Mas reduzir a obra de Homero a uma sequência de aventuras é como olhar apenas para o cartão-postal de uma paisagem, e é isso que eu quero destrinchar, porque existe uma camada muito mais profunda.


Ulisses passa dez anos tentando voltar para Ítaca depois da Guerra de Tróia. Em cada ilha, em cada encontro e em cada obstáculo, ele precisa responder à mesma pergunta de formas diferentes: quem permanece sendo Ulisses depois de tudo o que viveu?


A filosofia sempre enxergou essa viagem como algo muito maior do que um deslocamento geográfico.


O filósofo francês Gaston Bachelard dizia que a casa representa o lugar da intimidade, da memória e do ser. Voltar para casa significa retornar ao espaço onde encontramos a nossa verdadeira identidade.


Carl Jung via os mitos como mapas da psique humana. Para ele, os monstros enfrentados pelos heróis representam aspectos internos que precisam ser integrados.


Martin Heidegger escrevia que o ser humano habita o mundo antes de simplesmente ocupá-lo. Habitar significa criar uma relação verdadeira com aquilo que nos cerca.


Te lembrou de alguma coisa? talvez seja exatamente isso que fazemos quando fotografamos!


Capa de livro sobre fundo de madeira, com estátuas clássicas e texto Thomas Bulfinch, O Livro de Ouro da Mitologia, em tons preto e dourado.

Fotografar também é uma jornada


Conheço muitos fotógrafos que começaram procurando lugares espetaculares. Tipo eu! rsrs.


Durante muito tempo acreditamos que a próxima viagem será responsável pela nossa melhor fotografia. A Patagônia, Indonésia, as Dolomitas, o Alasca. Depois pensamos no deserto seguinte, na montanha seguinte, no país seguinte. As viagens realmente ampliam nosso repertório e expandem nosso olhar, mas, em algum momento, parece que algo muda, percebemos que duas pessoas podem estar exatamente diante da mesma paisagem e produzir fotografias completamente diferentes.


Nesse instante nasce uma pergunta muito mais interessante do que “para onde devo viajar?”.


A pergunta passa a ser: Como eu vejo o mundo?


É nesse momento que a fotografia deixa de ser apenas exploração geográfica para se tornar exploração interior, pois eu vejo o mundo através do meu filtro de vivência, de tudo aquilo que eu passei, senti, vivi, explorei e vi.


Fotógrafo contemplando paisagem de um lago com montanhas nevadas ao fundo em um dia de céu claro

O retorno para Ítaca


Existe uma frase atribuída ao poeta grego Konstantinos Kaváfis que sempre me acompanha:


“Quando partires em viagem para Ítaca, faz votos de que o caminho seja longo.”


Voltar para Ítaca, não é bem o destino final, na verdade representa aquilo que nos tornamos durante a caminhada e na fotografia acontece exatamente o mesmo!


No início queremos aprender regras, depois buscamos dominar equipamentos, mais tarde estudamos composição, luz, edição e impressão, em seguida admiramos grandes fotógrafos e inevitavelmente somos influenciados por eles.


Tudo isso faz parte da viagem, mas chega um momento em que precisamos voltar para "casa", e essa casa já não é um lugar físico, é o nosso próprio olhar.


Encontrar um estilo é reconhecer uma voz


Muitas vezes as pessoas perguntam como encontrar um estilo fotográfico e eu sempre achei curiosa essa escolha de palavras. Encontrar. Como se ele estivesse escondido em algum lugar esperando ser descoberto, mas hoje penso diferente.


O estilo não é encontrado, ele é reconhecido. Ele sempre esteve presente em pequenas escolhas que fazemos sem perceber. Por exemplo:


  • Na forma como esperamos a luz.

  • Na distância que mantemos dos assuntos.

  • Na maneira como usamos ou não os elementos invisíveis como tempo e sensações.

  • Naquilo que escolhemos excluir do enquadramento.

  • No tempo que permanecemos diante da paisagem.


Essas decisões vão formando uma espécie de assinatura invisível.


Com o tempo, começamos a perceber que não estamos exatamente fotografando um assunto óbvio, aquilo que está diante da câmera, mas sim aquilo que existe dentro de nós.



A paisagem como espelho


Seria por isso que continuo voltando aos mesmos temas? Água, neblina, píeres, amanheceres, longas exposições, silêncio, minimalismo.


Eu meio que me reconheci nisso ao ir observando meu próprio trabalho fotográfico, essas paisagens conversam com algo que sempre existiu em mim.


Quanto mais fotografo, mais percebo que a paisagem funciona como um espelho discreto. Ela revela estados de presença que muitas vezes passariam despercebidos no ritmo acelerado da vida cotidiana. Cada fotógrafo acaba encontrando uma paisagem que responde às perguntas que carrega.


Alguns a encontram nas montanhas, outros nas cidades, outros ainda no mar, nas árvores, nas pessoas ou até nos pequenos detalhes do cotidiano.


A paisagem exterior desperta uma paisagem interior.


Homem em rocha à beira-mar olhando o oceano turquesa, com falésias verdes ao fundo sob céu limpo.

A verdadeira exploração


Vivemos uma época em que viajar nunca foi tão acessível e também nunca tivemos tantas fotografias sendo produzidas diariamente, engraçado que paradoxalmente, as imagens que mais permanecem na memória continuam sendo aquelas que carregam presença, o ato de ter vivido, apreciado e observado aquele "momento presente".


Essas imagens possuem uma coerência difícil de explicar racionalmente, reconhecemos quando existe um autor por trás da fotografia, não apenas alguém que apertou o disparador e acho que seja essa a maior aventura disponível para um fotógrafo.


Explorar o mundo continua sendo maravilhoso, mas explorar a própria forma de enxergar o mundo talvez seja uma viagem ainda mais longa e certamente mais transformadora!



A minha própria Odisseia


Quando assisti semana passada a Odisseia, de Christopher Nolan nos cinemas, senti a mesma curiosidade que tinha quando criança folheando livros de mitologia grega, imagino que Nolan, como costuma fazer, enxergou nessa história muito mais do que batalhas e criaturas fantásticas, ele encontrou uma reflexão sobre identidade, tempo, memória e transformação. Essa sempre foi a essência da obra de Homero e talvez seja também a essência da fotografia.


Cada viagem, cada amanhecer, cada trilha, cada câmera e lente e cada fotografia nos conduzem lentamente para um lugar que parecia distante, mas sempre esteve esperando por nós. Nossa própria Ítaca.


Na minha opinião é justamente essa a maior descoberta que uma câmera pode proporcionar. Perceber que toda grande expedição começa caminhando para o horizonte, mas termina dentro de quem segura a câmera.


Recomendo assistirem este filmaço, mas antes assistam este vídeo da gloriosa Lucia Helena Galvão, falando sobre a Odisséia.



Abraços e nos vemos no próximo!

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