Como Melhorar a Composição Fotográfica e Desenvolver um Estilo Pessoal - Parte 2 de 4
- Ale Rodrigues

- 21 de jul.
- 7 min de leitura
Atualizado: 23 de jul.
Um guia para criar fotografias que expressem quem você é, e não apenas o que estava diante da câmera

Linhas, formas, ritmo e a arte de retirar em vez de acrescentar
Na primeira parte desta série conversamos sobre um aspecto que considero fundamental: uma boa composição não nasce das regras, mas da intenção. Também vimos que luz e cor não são apenas características da cena; elas fazem parte da linguagem visual com a qual construímos uma fotografia.
Agora chegamos ao momento em que essa intenção precisa ganhar forma.
Quando estamos diante de uma paisagem, nosso olhar costuma ser atraído pela beleza do lugar. O problema é que a câmera não registra beleza da mesma maneira que nós a percebemos. Ela registra formas, linhas, contrastes, volumes e cores distribuídos em um retângulo e é justamente aí que começa o verdadeiro trabalho do fotógrafo.
Aprenda a ver antes de fotografar
Existe uma habilidade que raramente é ensinada nos cursos de fotografia, mas que considero uma das mais importantes: aprender a enxergar uma cena como uma composição, e não como um lugar. Quando caminhamos por uma praia, por exemplo, nosso cérebro identifica imediatamente o mar, as montanhas, o céu, as pedras e a vegetação. Ele monta uma narrativa completa daquilo que estamos vendo, porém a câmera não faz isso, ela transforma tudo em manchas de luz, é por isso que tantos lugares impressionantes resultam em fotografias decepcionantes, nós fotografamos aquilo que sabemos que está ali, e não aquilo que realmente aparecerá dentro do enquadramento.
Sempre que chego a um novo local, procuro diminuir o ritmo. Antes mesmo de retirar a câmera da mochila, observo durante alguns minutos.
Pergunto a mim mesmo:
O que realmente organiza essa paisagem?
Existe uma direção predominante?
Tem excesso de informação?
O que está competindo pela atenção?
Existe uma fotografia escondida dentro dessa paisagem?
Essa mudança de postura faz uma enorme diferença.
Por causa dessa atitude, o objetivo passa a ser descobrir uma estrutura visual interessante.
Linhas: o caminho que conduz o olhar
Poucos elementos possuem tanta força na composição quanto as linhas, mesmo sem perceber, seguimos linhas naturalmente.
Uma estrada.
Um rio.
Uma cerca.
A margem de uma praia.
A sombra projetada por um prédio.
Tudo isso influencia o caminho que nossos olhos percorrem dentro da fotografia e por esse motivo, costuma-se chamar essas estruturas de linhas-guia ou linhas condutoras.
Mas existe um detalhe importante: uma linha não precisa literalmente apontar para o assunto principal, ela pode simplesmente criar um percurso visual agradável.
Em algumas das minhas fotografias favoritas, o olhar não chega imediatamente ao elemento principal. Ele viaja pela imagem antes de encontrá-lo e essa pequena demora cria envolvimento, o observador permanece mais tempo diante da fotografia, é quase como caminhar por uma trilha, o destino importa, mas a experiência do percurso também.
Linhas retas e linhas curvas
Nem todas as linhas comunicam a mesma sensação.
Linhas retas costumam transmitir estabilidade, ordem e direção.
Linhas diagonais sugerem movimento e energia.
Linhas verticais frequentemente evocam força ou imponência.
Linhas horizontais tendem a transmitir tranquilidade e equilíbrio.
Já as curvas possuem um comportamento completamente diferente, elas desaceleram o olhar, criam suavidade e convidam o observador a permanecer mais tempo dentro da imagem.
Talvez por isso rios sinuosos, dunas, estradas e margens curvas apareçam com tanta frequência na fotografia de paisagem, porque eles naturalmente conduzem nossa atenção sem parecerem rígidos, sempre que encontro uma curva interessante na natureza, costumo explorá-la sob diferentes ângulos, às vezes basta caminhar poucos metros para que aquela linha passe a conectar todos os elementos da fotografia.
Formas: a geometria escondida na paisagem
Depois que começamos a observar linhas, outro universo passa a surgir diante dos nossos olhos. As formas.
Montanhas frequentemente formam triângulos.
Lagos podem criar círculos.
Campos agrícolas revelam retângulos.
Sombras desenham figuras geométricas inesperadas.
Arquitetura é praticamente um laboratório de geometria.
Quando passamos a enxergar essas relações, a gente para de fotografar objetos isolados e começamos a fotografar estruturas, e isso torna a composição muito mais sólida.
Sempre gostei de imaginar que uma fotografia bem construída continua funcionando mesmo quando retiramos todas as cores, se ela permanece interessante apenas pelas formas e pela distribuição dos elementos, provavelmente sua composição possui uma boa base, essa é uma excelente prática, experimente observar algumas de suas fotografias em preto e branco, se elas perderem completamente a força, talvez a composição estivesse dependendo apenas das cores.
Ritmo visual: quando a fotografia tem liberdade
Existe um conceito vindo da música que também se aplica à fotografia: ritmo. Na música, ritmo nasce da repetição, na fotografia acontece exatamente o mesmo:
Uma sequência de árvores.
Janelas repetidas em uma fachada.
Ondas chegando à praia.
Pilares.
Postes.
Pedras.
Todos esses elementos criam padrões que fazem nossos olhos percorrerem a imagem de maneira fluida, mas existe algo ainda mais interessante, o ritmo não depende apenas da repetição, ele também depende das interrupções.
Imagine uma longa sequência de árvores idênticas, agora imagine que apenas uma delas esteja iluminada pelo sol, ou que apenas uma possua folhas avermelhadas, essa pequena quebra torna-se imediatamente significativa, é justamente porque existe repetição que percebemos a exceção e a fotografia funciona da mesma maneira, às vezes o elemento mais importante da composição é aquele que rompe o padrão.
O espaço negativo: o elemento que muitos insistem em preencher
Durante muito tempo, acreditei que uma boa fotografia precisava ocupar completamente o quadro, mas hoje penso exatamente o contrário, em muitos casos, aquilo que não fotografamos possui tanto peso quanto aquilo que decidimos incluir, chamamos esse conceito de espaço negativo, que eu mostro bastante no meu ebook o essencial no silêncio, um guia profundo para a fotografia minimalista.
Trata-se das áreas aparentemente vazias da imagem.
Um céu limpo.
Uma parede.
Uma grande área de água.
Neve.
Neblina.
Areia.
Esses espaços cumprem uma função muito importante, eles oferecem descanso para o olhar, criam contraste, destacam o assunto principal e permitem que a fotografia tenha um espaço de respiro.
Existe um exercício que costumo sugerir aos alunos, sempre que terminar uma composição, pergunte:
“Tem algo que posso retirar sem perder a essência da fotografia?”
Se a resposta for sim, provavelmente vale a pena tentar e curiosamente, essa pergunta continua válida também durante a edição.
Simplificar é uma das habilidades mais difíceis da fotografia
Há uma frase atribuída a Antoine de Saint-Exupéry que me acompanha há muitos anos:
“A perfeição é alcançada não quando não há mais nada para acrescentar, mas quando não há mais nada para retirar.”
Ela resume uma das maiores dificuldades da fotografia, porque nosso impulso natural é adicionar:
Mais elementos.
Mais contraste.
Mais saturação.
Mais informação.
Fotografias marcantes impressionam pela clareza daquilo que decidiram mostrar, simplificar significa eliminar distrações. Uma boa composição possui um propósito claro.
Tudo aquilo que não contribui para esse propósito pode ser repensado.
Na prática, isso significa observar cuidadosamente as bordas do enquadramento.
Quantas vezes um pequeno galho entrando discretamente pela lateral da imagem acaba desviando mais atenção do que imaginávamos?
Quantas vezes uma pedra clara no canto inferior compete com o verdadeiro assunto da fotografia?
Esses pequenos detalhes costumam passar despercebidos durante o clique, mas tornam-se evidentes depois.
Com o tempo, aprendemos a enxergá-los ainda em campo e não deixamos mais para fazer isso na edição. A isso se chama um olhar mais treinado.
As bordas contam uma história
Existe um hábito que desenvolvi ao longo dos anos, antes de fotografar, faço um último passeio visual pelas quatro bordas da imagem, não olho para o centro, olho apenas para as extremidades, esse pequeno ritual evita muitos problemas.
As bordas funcionam como o limite do universo que estamos criando, tudo aquilo que toca esse limite chama atenção:
Elementos cortados pela metade.
Galhos entrando discretamente.
Pessoas parcialmente visíveis.
Postes.
Lixeiras.
Pedras.
Um elemento com brilho no canto.
São pequenos detalhes que podem alterar completamente a leitura da fotografia, não existe problema em cortar um elemento, o problema é parecer que ele foi cortado por acidente, toda decisão de composição precisa parecer intencional.
Equilíbrio não significa simetria
Outro equívoco comum é acreditar que equilíbrio depende de simetria. Não depende.
Uma fotografia pode ser perfeitamente equilibrada mesmo quando todos os elementos estão distribuídos de maneira aparentemente irregular.
Pense em uma única árvore isolada ocupando um lado do quadro, do outro lado existe apenas céu. Visualmente, essa fotografia pode transmitir enorme equilíbrio. Por quê?
Porque equilíbrio não está relacionado apenas ao tamanho dos objetos, mas sim ao seu peso visual:
Cor.
Contraste.
Luminosidade.
Textura.
Todos esses fatores alteram o peso que cada elemento exerce dentro da composição e é exatamente por isso que um pequeno barco vermelho pode equilibrar uma montanha inteira.
Aprenda as regras para depois esquecê-las
Em algum momento, quase todo fotógrafo pergunta: “Então as regras de composição não servem para nada?” Servem. E muito. O problema nunca foram as regras. O problema é imaginar que elas sejam o destino. Na realidade, elas representam apenas um ponto de partida:
Aprender regra dos terços.
Linhas-guia.
Molduras naturais.
Diagonais.
Proporção áurea.
Tudo isso amplia seu repertório visual, mas nenhuma dessas ferramentas substitui uma ideia. Com o passar dos anos, você perceberá algo curioso; quanto mais domínio desenvolve sobre composição, menos pensa conscientemente nessas regras, elas passam a fazer parte da sua percepção, da mesma forma que um músico experiente já não pensa em cada nota enquanto toca, o fotógrafo deixa de montar fotografias mentalmente seguindo fórmulas, ele passa simplesmente a enxergá-las, esse sim é o verdadeiro objetivo do estudo da composição.
Não decorar regras.
Mas sim educar o olhar.
Continuação
Na terceira parte desta série vamos entrar em um tema que considero decisivo para qualquer fotógrafo que deseja produzir imagens autorais: como a técnica deve servir à expressão, e não o contrário. Também falaremos sobre o desenvolvimento do estilo pessoal, influência, repertório, repetição, edição, impressão e exercícios práticos que podem acelerar a construção de uma linguagem visual própria. É nessa etapa que a composição deixa de ser apenas uma habilidade e começa a se transformar em identidade.


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