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O olhar e o coração de Sebastião Salgado que transformaram minhas paisagens

  • Foto do escritor: Ale Rodrigues
    Ale Rodrigues
  • 24 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura
Foto em preto e branco de montanhas escarpadas e vale com rio sinuoso sob nuvens dramáticas, emoldurada na parede.
Montanhas de Brooks - Alaska 2009 - Sebastião Salgado

Quando comecei a fotografar, como muitos fotógrafos em início de carreira, estava mais focado na técnica: enquadramento, luz, equipamentos, do que no significado por trás das imagens. Na época, minha câmera era apenas uma ferramenta para capturar a beleza das paisagens naturais. Foi quando descobri o trabalho de Sebastião Salgado , um dos maiores nomes da fotografia humanista mundial, que muita coisa mudou.


Apesar de ele ser amplamente conhecido por retratar seres humanos em condições extremas ou em comunidades remotas, foi o olhar ético, político e emocional dele sobre o mundo que me impactou profundamente e não apenas a presença humana em suas fotos. Seu trabalho me fez entender que a fotografia, seja de pessoas ou da natureza, pode ser muito mais do que uma simples representação visual: ela pode ser uma forma de testemunho, de conexão e de transformação.


A Paisagem como Testemunha


Salgado tinha uma habilidade única de transformar a câmera numa ferramenta de testemunho. Suas séries como “Êxodos(1997)” , “Gênesis(2013)” e “Amazônia(2019)” são verdadeiras epopéias visuais sobre a condição humana e a natureza. Ele viajou por mais de 120 países retratando comunidades esquecidas, povos indígenas e paisagens primitivas. E o mais impressionante é que ele faz isso sem julgamento, sem sensacionalismo, apenas com respeito e reverência pelo que está diante de sua lente.


Essa abordagem me fez repensar minha própria forma de fotografar. Antes, eu buscava a perfeição técnica; hoje, busco capturar algo mais profundo nas paisagens: a memória do lugar, o estar presente naquilo que fazemos, a essência. Hoje, antes de apertar o botão, tento entender o que aquela paisagem representa, qual a história que ela conta sobre nós, seres humanos, sobre mim, sobre nosso relacionamento com o planeta.


Assim como Salgado, passei a ver a fotografia como um meio de contar histórias que precisam ser ouvidas. Não importa se são histórias de dor, resistência, beleza ou esperança, o importante é que sejam contadas com autenticidade. Mesmo que eu não inclua seres humanos diretamente nas minhas imagens, tento deixar claro que cada paisagem carrega a marca da nossa presença, consciente ou inconscientemente.


A Busca Pela Essência


Uma das coisas que mais admiro no trabalho de Sebastião Salgado é sua escolha deliberada por fotografar em preto e branco . Para ele, a cor distrai. O essencial é a forma, a luz, a textura, a emoção. Isso influenciou diretamente meu estilo pessoal. Comecei a perceber que, ao remover as cores, conseguia capturar melhor a alma dos lugares. Muitas vezes chego a pensar bem em deixar a paleta de cores mais suave quando não uso preto e branco.


Suas composições são minimalistas, poderosas e extremamente simbólicas. Em minhas fotografias, busco esse mesmo equilíbrio entre simplicidade e profundidade. Tento capturar o essencial, seja na curvatura de uma montanha, seja na quietude de um rio cortando a floresta, nas margens de um lago ou ao nascer do sol em uma praia.


Assim como Salgado a minha busca é por encontrar sentido através da imagem. Ambos acreditamos que a fotografia pode transcender o visual e tocar o humano, mesmo que os humanos estejam ausentes da cena.


Um Propósito Maior


Além de fotógrafo, Salgado é um ativista ambiental e social. Com sua esposa, Lélia Wanick Salgado, restaurou uma área devastada da Mata Atlântica no interior de Minas Gerais, criando o Instituto Terra . Esse projeto não só recuperou hectares de floresta, mas também serviu como exemplo de como podemos reparar os danos que causamos ao planeta.


Esse compromisso ambiental me inspira muito em minhas fotos, pois o que eu mais fotografo são os ambientes naturais.


Ser Humano Antes de Artista


Talvez a maior lição que aprendi com Sebastião Salgado não tenha sido técnica nem estética, mas sim existencial. Ele me ensinou que, para fotografar o mundo com honestidade, preciso primeiro me posicionar nele com empatia. Que não basta ter uma boa câmera se não tivermos um bom coração.


Hoje, entendo que o meu trabalho como fotógrafo vai muito além de cliques e exposições. É uma forma de estar no mundo. De ouvir, aprender, compartilhar e, sobretudo, servir. Por mais que eu fotografe paisagens vazias de gente, elas sempre falam de nós, da nossa relação com a terra, com o tempo, com a história, com outros humanos e animais e com a natureza.


Assim como ele, quero usar a fotografia como propósito. Quero, com minhas imagens, contribuir para me tornando um ser humano melhor, refletindo sobre o que vejo, como eu vejo e como produzo aquilo e através dessa transformação interna que seja sentida pelas pessoas que estão vendo este trabalho.


Conclusão


Aprendi com Sebastião Salgado que a fotografia é muito mais do que uma arte, é um ato de amor. Amor ao mundo, às suas formas, suas sombras, suas nuances. Amor ao que permanece e ao que desaparece.


Cada paisagem que fotografo agora carrega dentro de si uma pergunta silenciosa: “Como queremos ser lembrados?”. E, por trás de cada linha do horizonte, há um desejo de resposta: o de que ainda há tempo para cuidar, para reparar, para olhar com ternura.


Fotografar não é apenas registrar. É relembrar. É reencontrar. É reexistir.


Obrigado Tião!


P.S.: A última vez que o encontrei presencialmente foi no Paraty Em Foco em 2024, onde assisti uma palestra incrível dele, que ficou gravada e deixo inclusive o link aqui para quem quiser assistir. É sempre inspirador ouvir ele falar e sempre me emociono.



Píer de madeira sobre mar calmo ao pôr do sol, com barcos ancorados e ilhas ao fundo em clima sereno.
Pier em Paraty - RJ - ©2024 Ale Rodrigues

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