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Por que ainda fotografamos lugares que já foram fotografados milhões de vezes? (fotografia de paisagem)

Foto do escritor: Ale Rodrigues
Ale Rodrigues
há 7 dias
5 min de leitura

Praias, montanhas, parques, florestas, locais turísticos, Lençóis Maranhenses, Patagônia, Torres del Paine, Dolomitas, Islândia... Tudo parece já ter sido fotografado, não é verdade?


Bem, se é assim, então por que continuar fotografando?


Não adianta dizer que é para conseguir uma fotografia "diferente". Por que essa busca por uma fotografia "diferente"? Ah, mas fui eu que tirei. Ok. Mas, nesse caso, não seria melhor deixar a câmera de lado e simplesmente curtir a experiência de estar lá?


Talvez a resposta não seja tão simples.


A paisagem continua a mesma, mas nós mudamos


Uma viagem, seja para muito longe ou até mesmo para perto de casa, como um parque da sua cidade, sempre nos motiva a observar melhor.


A paisagem pode continuar praticamente a mesma, mas a luz estará diferente. A estação do ano será outra. O clima poderá transformar completamente aquele lugar. Uma árvore pode ter sido arrancada ou tombada. Um parque pode ter passado por uma reforma. Um rio pode estar mais cheio. Uma praia pode estar completamente diferente.


E nós também mudamos.


Algo para o qual você não dava importância há alguns anos pode, de repente, se tornar justamente aquilo que mais chama sua atenção.


Às vezes, nem imaginamos que, em determinada época da vida, estaremos fotografando coisas que nunca pensamos que fotografaríamos.

Seria esse justamente por isso que nenhum lugar permanece exatamente o mesmo?

Acredito que é por esse motivo que continuo voltando aos mesmos lugares para fotografar.


Às vezes porque, no dia em que estive lá, a luz não estava da maneira como eu gostaria. Outras vezes porque percebi que determinada composição poderia funcionar melhor em outro horário do dia. Em algumas ocasiões, simplesmente porque quero voltar.


A fotografia de paisagem tem essa característica curiosa: podemos voltar ao mesmo lugar inúmeras vezes e ainda assim encontrar alguma coisa que não havíamos percebido.


Estamos fotografando a paisagem ou a nós mesmos?


Estaríamos nós, fotógrafos, fotografando a nós mesmos; e não a paisagem, quando fotografamos lugares que já foram fotografados várias e várias vezes?


Ultimamente venho me questionando muito sobre isso.

Viajar é ótimo. Sair da nossa rotina nos apresenta situações diferentes daquelas às quais estamos acostumados. Novos lugares, novas pessoas, novos sons, novos cheiros, novas luzes.


Mas viajar para lugares considerados extremamente turísticos e "instagramáveis", ao meu ver, pode acabar fazendo com que a experiência perca parte do seu sentido.

Tenho a impressão de que, muitas vezes, a fotografia acaba funcionando apenas como uma espécie de comprovante de presença.


Uma selfie diante de um monumento, uma fotografia diante de uma montanha, um registro diante de uma cachoeira.


"Eu estive aqui."


Como se provar que estivemos em determinado lugar fosse quase tão importante quanto realmente ter vivido a experiência de estar ali.


Na minha opinião é aí que a fotografia pode assumir outro papel.


Fotografar não é apenas provar que estivemos lá


Como fotógrafo, priorizo cada vez mais a experiência de estar no lugar.

Como eu me senti ali? O que aquela luz provocou em mim? O que aquela montanha, aquele lago, aquele rio, aquela praia ou aquela árvore no meio da floresta me fez sentir?


Essas perguntas são muito mais importantes para mim do que simplesmente voltar para casa com uma fotografia que mostre onde estive.


Para que essa experiência seja o mais sensorial possível, prefiro estar em locais com poucas pessoas e, de preferência, na natureza.

Lugares onde eu possa me reconectar.


Pode até ser um destino turístico. Não necessariamente preciso fugir dele. Mas talvez eu não precise estar exatamente naquele mirante onde todos vão.


Às vezes, a poucos metros dali, encontro algo muito mais satisfatório ao meu olhar.


Um detalhe despercebido. Uma sombra. Uma textura. Uma nuance de luz. Uma árvore isolada. Uma pequena mudança na paisagem que provavelmente passaria despercebida pela maioria das pessoas.


É nesses momentos que sinto que evoluo não apenas como fotógrafo, mas também como ser humano. Quando estou realmente sintonizado com o lugar. Quando estou vivendo aquele momento presente.


Talvez seja por isso que eu goste tanto da longa exposição


Talvez seja também por isso que eu tenha tanta afinidade com a fotografia de longa exposição. Uma longa exposição permite que o tempo participe da construção da imagem. As nuvens se deslocam. A água se transforma. As árvores se movimentam. A luz muda.


Tudo aquilo que nossos olhos percebem em sequência pode ser condensado em uma única fotografia. É como se eu pudesse preservar não apenas o lugar, mas também uma pequena parcela do tempo que vivi ali.


Quando uma paisagem me toca de verdade, minha intenção não é simplesmente registrar como ela estava naquele momento. Quero preservar também a sensação daquele momento.


Quase como um registro de vídeo em loop, em que diferentes movimentos temporais se sobrepõem para criar uma imagem que representa não apenas aquilo que vi, mas aquilo que vivi.


Talvez seja essa uma das razões pelas quais a longa exposição esteja tão presente na minha fotografia de paisagem.


A obsessão pela fotografia inédita


A obsessão contemporânea pela "foto inédita" é, de certa maneira, um motor que faz o fotógrafo viajar para os mais diferentes lugares. Do quintal de casa a um parque da cidade. De uma praia próxima a uma cachoeira na Islândia. Dos Lençóis Maranhenses às montanhas da Patagônia. Das Dolomitas às florestas de um lugar que talvez nunca tenhamos ouvido falar.


Existe sempre a sensação de que precisamos encontrar um lugar novo, uma paisagem nova, uma composição que ninguém tenha feito antes. Mas será que precisamos realmente disso? Será que estamos viajando apenas para colecionar fotografias de diferentes lugares, como uma espécie de cartela de bingo?


Ou estamos, a cada viagem, compreendendo um pouco mais sobre nós mesmos?


Talvez a verdadeira viagem fotográfica não seja apenas uma jornada pelo espaço.

Talvez seja também uma jornada para dentro.

Uma tentativa de compreender a nossa própria "paisagem interior".


O que estamos realmente procurando?


Não me entenda mal. Não estou dizendo que estabelecer uma meta de conhecer e fotografar mais de 100 países seja algo sem fundamento. Muito pelo contrário. Viajar pode ser uma experiência transformadora, e conhecer diferentes paisagens, culturas e formas de viver pode ampliar enormemente nosso repertório.


A questão é outra.


Precisamos saber o que estamos procurando. Estamos viajando apenas para dizer que estivemos lá? Para conseguir a fotografia que ainda não temos? Para preencher mais um espaço no nosso portfólio? Para publicar uma imagem que consiga mais curtidas?


Ou estamos viajando porque existe alguma coisa naquele lugar que queremos experimentar? Talvez a fotografia seja apenas a consequência.


Talvez o verdadeiro objetivo não seja voltar para casa com uma fotografia inédita, mas voltar diferente de quando partimos.


E talvez seja justamente por isso que continuamos fotografando lugares que já foram fotografados milhões de vezes.


Porque a paisagem pode até ser a mesma.


Mas nós nunca somos.


E enquanto continuarmos mudando, sempre haverá alguma coisa nova para fotografar.


Píer de madeira quebrado sobre lago calmo ao nascer do sol, céu em tons dourados e rosados, cena serena.
Cananéia, São Paulo - 2026 - © Ale Rodrigues

2 comentários

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Jean
há 6 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que reflexão límpida e útil! Quantas vezes nos pegamos clicando aleatoriamente e percebemos que nesse caso nada foi feito de bom. Nem curtimos o lugar, o momento, as pessoas, e também não fizemos nenhum registro minimamente interessante. Excelente texto!!!

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Giovane
há 6 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Caramba Ale, se superou nesse artigo parabéns

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