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Como Melhorar a Composição Fotográfica e Desenvolver um Estilo Pessoal - Parte 3 de 4

  • Foto do escritor: Ale Rodrigues
    Ale Rodrigues
  • 22 de jul.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 7 de ago.

Um guia para criar fotografias que expressem quem você é, e não apenas o que estava diante da câmera


Mar em preto e branco com forte desfoque radial, linha do horizonte ao centro e ondas borradas.
Nostalgie VIII - 2020 - ©Ale Rodrigues

Quando a técnica deixa de ser o objetivo e passa a servir à sua visão


Nas duas primeiras partes desta série parte 1 e parte 2, conversamos sobre a composição como uma forma de organizar a atenção do observador. Vimos que luz, cor, linhas, formas, ritmo e espaço negativo não são apenas recursos estéticos, mas ferramentas para comunicar uma ideia.


Chegamos agora ao ponto que considero o mais importante de todo o processo e é aqui que muitos fotógrafos acabam estagnando, porque passam a investir toda a sua energia em aperfeiçoar a técnica e quase nenhuma em desenvolver o próprio olhar.


A técnica é indispensável. Ela nos dá liberdade. Mas, sozinha, nunca foi capaz de produzir uma fotografia memorável.



A armadilha da técnica


Vivemos uma época extraordinária para a fotografia, nunca tivemos câmeras tão avançadas, sensores com tamanha qualidade, softwares tão poderosos ou tanto conhecimento disponível gratuitamente, mas paradoxalmente, nunca foi tão difícil produzir imagens verdadeiramente originais, já reparou? Isso acontece porque existe uma tendência natural de acreditar que sempre falta aprender mais uma técnica ou comprar mais um equipamento ou mais uma lente, ou ainda:


  • Mais uma forma de editar.

  • Mais um plugin.

  • Mais um filtro.


É um ciclo que aparenta não ter fim.


Durante muito tempo também percorri esse caminho, como engenheiro de formação, sempre gostei da parte técnica da fotografia. Entender o funcionamento da câmera, testar equipamentos, estudar óptica e pós-produção sempre despertou meu interesse, mas houve um momento em que percebi algo curioso, acredito que foi por volta de 2015, quando pude passar um dia todo fotografando na praia e quando criei a minha primeira série fotográfica: Dinâmica da quietude


Quanto mais confortável eu me tornava tecnicamente, menos pensava na câmera, ela deixava de ocupar o centro da minha atenção e isso era libertador, a técnica finalmente estava cumprindo seu verdadeiro papel, pois ela havia deixado de ser protagonista.



Técnica é linguagem, não mensagem


Imagine um escritor, ele precisa dominar gramática, pontuação, vocabulário, construção de frases, tudo isso é essencial. Mas ninguém lê um romance porque o autor sabe utilizar corretamente uma vírgula, lemos porque existe algo sendo dito.


Na fotografia acontece exatamente o mesmo.


  • Exposição.

  • Foco.

  • Profundidade de campo.

  • ISO.

  • Velocidade.

  • Distância hiperfocal.

  • Histograma.


São ferramentas, são o equivalente ao vocabulário de uma língua, ou as panelas de um chef de cozinha, ou ao pincel e tela de um pintor, elas permitem que você comunique melhor suas ideias, mas não substituem as ideias.


Sempre digo aos meus alunos que dominar a técnica é semelhante a aprender um idioma, depois que você aprende, deixa de pensar na gramática e passa a pensar na conversa e é exatamente isso que buscamos na fotografia.


Quanto menos energia você precisar dedicar aos aspectos técnicos durante o clique, mais espaço mental terá para observar a luz, perceber pequenas mudanças na paisagem e responder intuitivamente ao que está acontecendo diante de você.



Existe uma fotografia que apenas você pode fazer


Uma pergunta costuma aparecer em praticamente todos os meus workshops: “Alê, como encontrar meu estilo?” Minha resposta normalmente decepciona quem espera uma fórmula. Porque não existe uma. Aliás, acredito que essa pergunta parte de um pressuposto equivocado, porque ela sugere que o estilo seja algo que possa ser escolhido, que nem alguém que escolhe um filtro ND ou uma paleta de cores, ou um tipo de edição, mas na minha experiência, funciona exatamente ao contrário, o estilo não é algo que escolhemos, é algo que inevitavelmente revelamos, mesmo sem perceber.



Seu estilo começa muito antes da fotografia


Pense nas pessoas que influenciaram sua maneira de enxergar o mundo:


  • Os livros que você leu.

  • Os filmes que assistiu.

  • As músicas que marcaram determinados períodos da sua vida.

  • As viagens.

  • As conversas.

  • As perdas.

  • Os lugares onde cresceu.

  • As cidades pelas quais passou.

  • As pessoas que admirou.


Tudo isso modifica silenciosamente a maneira como você observa uma paisagem. Quando dois fotógrafos visitam exatamente o mesmo lugar, eles não estão vendo a mesma cena. Pode apostar. Estão olhando através de histórias completamente diferentes, e é por isso que acredito que um estilo pessoal não nasce apenas do estudo da fotografia, ele nasce da vida que o fotógrafo viveu e construiu ao longo dos anos.


Quanto maior for o seu repertório humano, maior tende a ser o seu repertório visual.



A influência não é o inimigo


Existe um receio muito comum entre fotógrafos: “O que acontece se eu estiver sendo influenciado por outro fotógrafo?” A resposta é simples: Você estará. Todos nós estamos. A influência faz parte do processo criativo. Nenhum artista cria a partir do vazio. Pintores estudaram outros pintores e até fotógrafos e vice-versa. Escritores leram outros escritores, compositores ouviram outros compositores. O problema é permanecer na influência.


Copiar uma fotografia pode ser um excelente exercício de aprendizado, permanecer copiando durante anos significa interromper o próprio desenvolvimento, com o tempo, as referências devem tornar-se matéria-prima, você absorve, mistura, transforma e devolve ao mundo algo que já não pertence exclusivamente a nenhuma das influências iniciais.



Fotografar menos pode fazer você crescer mais


Como assim Ale? Pode parecer contraditório, mas acredito que fotografar muito nem sempre significa evoluir rapidamente, o que realmente acelera o desenvolvimento é fotografar com intenção.


Conheço fotógrafos que retornam de uma viagem com cinco mil arquivos, também conheço outros que voltam com cem, e muitas vezes, estes últimos produziram um trabalho muito mais consistente, isso acontece porque existe uma enorme diferença entre registrar tudo e observar profundamente.


A fotografia autoral exige tempo para caminhar, observar, esperar, voltar ao mesmo lugar, desistir de algumas imagens, aceitar que determinados dias simplesmente não renderão fotografias e essa é uma das lições mais difíceis, nem todo nascer do sol merece ser fotografado, nem toda paisagem precisa virar imagem, às vezes, a melhor decisão é simplesmente contemplar.



A repetição revela


Existe um conselho muito difundido na fotografia que é: “Saia da sua zona de conforto.”

Concordo apenas parcialmente, experimentar coisas novas é importante, mas permanecer tempo suficiente em um mesmo tema também é. Quando observamos o trabalho de grandes fotógrafos, percebemos que eles frequentemente retornam aos mesmos assuntos durante décadas


Sebastião Salgado dedicou anos ao projeto Gênesis, Michael Kenna passou a vida explorando paisagens minimalistas, foram mais de 30 anos. Pode reparar que eles sempre revisitavam perguntas. É justamente essa repetição que permite o surgimento de uma linguagem própria. Quanto mais você retorna a determinado assunto, menos fotografa sua aparência e mais fotografa sua essência.



Descobrindo padrões no seu próprio trabalho


Vamos a um exercício simples: Escolha cinquenta fotografias das quais você mais gosta, mas ignora redes sociais. Não são as que receberam mais curtidas, mas seja honesto com você mesmo e escolha aquelas que continuam fazendo sentido para você anos depois. Agora observe:


  • Existe predominância de determinadas cores?

  • Você prefere luz suave ou dramática?

  • Existe muito espaço negativo?

  • As fotografias costumam transmitir silêncio?

  • Movimento?

  • Minimalismo?

  • Contraste?

  • Linhas?

  • Água?

  • Névoa?

  • Arquitetura?


Talvez você descubra algo interessante, porque o seu estilo já estava presente, você apenas ainda não havia percebido.


Na maioria das vezes, encontramos nosso estilo olhando para trás!



A edição também faz parte da linguagem


Durante muito tempo existiu uma discussão sobre até que ponto a edição seria aceitável, mas hoje essa discussão me parece menos importante porque toda fotografia é uma interpretação.


Mesmo antes da fotografia digital, fotógrafos como Ansel Adams já manipulavam intensamente suas ampliações no laboratório. A questão nunca foi editar ou não editar.


A questão é: editar para quê? A edição deve reforçar aquilo que você sentiu quando fotografou. Ela não deveria inventar outra fotografia e foi ao longo dos anos que percebi que minha edição foi ficando progressivamente mais simples, porque minhas decisões passaram a acontecer principalmente em campo. Eu cada vez mais fui ficando mais consciente do resultado final tanto de edição quanto de impressão simplesmente ao olhar a paisagem.


Quando a intenção está clara no momento do clique, a pós-produção passa a ser o lugar onde refinamos aquilo que já existia.



A importância de imprimir suas fotografias


Existe uma experiência que nenhum monitor consegue substituir, ver sua fotografia impressa. Já falei em vídeos no canal no YouTube como esse aqui


A impressão dá uma freiada nossa relação com a imagem:


  • Ela revela pequenos erros.

  • Mostra excessos de contraste.

  • Cores exageradas.

  • Distrações que nunca percebemos na tela.


Ela transforma a fotografia em objeto, algo que ocupa espaço e que dialoga com a arquitetura, que permanece.


Acredito que todo fotógrafo deveria imprimir regularmente, mesmo pequenas ampliações, porque é um exercício extraordinário para desenvolver senso crítico.



Um exercício para desenvolver seu olhar


Gostaria de propor um exercício simples.


Durante um mês inteiro, escolha apenas um tema, pode ser:


  • Água.

  • Sombras.

  • Árvores.

  • Reflexos.

  • Janelas.

  • Neblina.


Fotografe apenas isso e se possível, utilize sempre a mesma lente, evite trocar constantemente de distância focal, essa restrição produz um efeito curioso, como você deixa de procurar assuntos diferentes, começa a observar soluções diferentes, sua criatividade deixa de depender da novidade e passa a depender da profundidade.


É exatamente aí que o olhar começa a amadurecer.



A fotografia como forma de autoconhecimento


Talvez a maior surpresa que a fotografia me proporcionou ao longo desses anos tenha sido perceber que ela diz muito menos sobre os lugares que visitamos do que sobre nós mesmos, dois fotógrafos podem estar lado a lado, utilizar o mesmo equipamento, esperar a mesma luz e mesmo assim, produzir fotografias completamente diferentes, porque cada um deles está respondendo a perguntas diferentes, fotografamos aquilo que valorizamos. Aquilo que percebemos. Aquilo que nos emociona.


Por isso, desenvolver um estilo pessoal é na verdade um processo de autoconhecimento.


Quanto mais compreendemos aquilo que realmente nos toca, mais consistentes tendem a se tornar nossas fotografias e essa é uma das razões pelas quais continuo fotografando. Para continuar descobrindo novas maneiras de olhar para os diferentes lugares e, de certa forma, para mim mesmo.



Continuação


Na quarta e última parte desta série reuniremos todas essas ideias em uma conclusão prática. Também veremos como transformar esse processo em um caminho contínuo de evolução, responderemos às dúvidas mais comuns sobre composição e estilo pessoal em um FAQ e deixaremos o artigo pronto para servir como um guia de referência para qualquer fotógrafo que deseje construir uma linguagem visual própria.



Galho de madeira na areia da praia, com maré baixa e névoa clara ao fundo, criando cena calma e minimalista.
Fotografia da série Hidden Realities - ©2024 Ale Rodrigues

1 comentário

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Mauro Regalado Soares
há 2 dias
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As vezes procuro uma espécie animal comum, aquela que tenho acesso fácil, aquela que ninguém dá atenção, que está ali presente no dia a dia de muitos, é o melhor exercício, fotografo insistentemente essa espécie, em dias, meses ou anos diferentes, seja verão, outono, inverno ou primavera, assim encontro as melhores épocas, os melhores ângulos, as melhores poses, os melhores costumes, as melhores ações. Gosto da reação que provoca depois de se tornar algo simples e diferente, daquilo que é super comum.

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